sábado, 29 de março de 2014

A MEDICINA NA ANTIGA CHINA (pdf 17ª e 18ª aulas 2013-2014)

https://dl.dropboxusercontent.com/u/4746082/Escul%C3%A1pio/Hist%C3%B3ria%20da%20Medicina%202013-14/17%C2%AA%20e%2018%C2%AA%20AULAS%202013-14-Medicina%20na%20Antiga%20China.pdf


As primeiras referências à Medicina Tradicional Chinesa (MTC) remontam ao 3º milénio aC, tendo como base os ensinamentos e descobertas atribuídas a três imperadores lendários, Fu Hsi,   Shen Nung ou Shennong (também conhecido por Imperador Vermelho, ou Agricultor ou dos Cinco Grãos) e Hwang Ti (o designado Imperador Amarelo). Os conhecimentos então obtidos, depois sucessivamente transmitidos por via oral nos milénios seguintes, culminaram em duas obras principais. Os resultados das experiências de Shen Nung originaram a primeira farmacopeia Chinesa conhecida, o Pen-Tsao (Shen-nung Pen-tsao Ching, ou Grande Ervanário, ou Matéria Médica do Divino Agricultor) ainda que a primeira obra escrita conhecida tenha sido, o "Nei Ji” ou “Clássico de Medicina Interna do Imperador Amarelo, publicada somente no séc. III aC.
Na sua essência, a MTC fundamenta-se num princípio filosófico que privilegia a harmonia e o equilíbrio cósmico que se reflecte também na natureza, comportamento e saúde humano. Nesta perspectiva, a MTC segue a teoria do “yang-yin” e os princípios da “cinco fases”. O yang (factor positivo) e o yin (negativo) são antagónicos mas interdependentes e indivisíveis, em busca do equilíbrio e da harmonia, o tao. As doenças resultariam do desequilíbrio “yang-yin”, enquanto o tratamento teria por objectivo a sua restauração. Porém, como princípio básico, a MTC elege a prevenção da doença e, só como recurso, o seu tratamento.
A teoria das “cinco fases” entende que os elementos água, fogo, metal, madeira e terra devem estar igualmente numa inter-relação harmoniosa e contrabalançada e interactiva. Nesta base, os estados fisiológicos ou patológicos do organismo reflectiriam o equilíbrio e harmonia, sou o seu oposto, respectivamente.
A perda de harmonia no próprio ou em relação com o ambiente gera a doença. Para o diagnóstico da afecção (de causa externa, interna ou intermediária), era usual recorrer ao questionário, exame do pulso, observação (da voz, cheiro, ouvido, corpo) e, raramente, ao toque em áreas afectadas, neste processo aplicavam-se também “oito princípios-chave” (yang e yin; superfície e interior, frio e calor, vigor e fraqueza). O resultado conjunto dos elementos recolhidos conduzia ao diagnóstico, prognóstico e definição do tratamento. O tratamento visava todo o corpo e não partes individualizadas, além de atender outras particularidades ambientais (p. ex., local de residência, hora do dia, estação do ano) que contribuiriam para restaurar a harmonia e, portanto, a saúde. O tratado Nei Ji prescrevia cinco tipos de processos terapêuticos: curar o espírito, alimentar o corpo, cuidar do corpo, usar medicamentos usar acupunctura e moxabustão. Nesses processos incluíam-se, p. ex., a reflexão, os exercícios, as massagens, dieta e, em último caso, uma panóplia abundante de medicamentos naturais, derivada da farmacopeia original Pen-Tsao , sucessivamente acrescentada até ao presente. A medicação correcta para restaurar o equilíbrio corporal pressupõe a combinação de larga quantidade de produtos medicamentosos. A cirurgia era limitada a casos pontuais.
A primeira escola médica e nove especialidades surgiram no século X; no século XIV já havia treze especialidades (Grandes vasos sanguíneos, pequenos vasos sanguíneos, febres, varíola, olhos, pele, ossos, laringe, boca e dentes, ginecologia, pediatria, pulso (para patologia interna, medicina externa, nariz e garganta e doenças infantis), cirurgia; foram também incluídos como especialistas médicos os técnicos de moxabustão, acupunctura, massagem, dieta e encantamentos). 
Parece que existiram sempre locais públicos para o tratamento de doentes pobres.
A partir do século I dC, havia hospitais que acolhiam doentes, assistidos por sacerdotes médicos. Este sistema deixou de funcionar com a irrupção do anti-Budismo, entre os séculos X e XII, recompondo-se desde então com a reabertura e aumento de novos hospitais públicos para pobres e classes sociais baixas, enquanto os ricos preferiam tratar-se no domicílio.

Os princípios filosóficos e grande parte das práticas ancestrais da MTC continuam em vigor.