Os primórdios da
medicina Egípcia remontam a cerca do século XXVIII aC, no tempo do
Império Antigo. Por via da escrita hieroglífica, que assegurou a comunicação e
um poder deificado que se prolongou por trinta dinastias, foram criadas
condições sociopolíticas para uma grande continuidade de tradições e práticas
sociais, em que se incluía também a arte de curar.
Muito do que
hoje se conhece sobre a medicina Egípcia proveio dos estudos e escavações
arqueológicas desenvolvidas na região banhada pelo Nilo, a partir dos séculos
XIX e XX dC. Dos documentos descobertos destacam-se o “Papiro Georg Ebers” e o “Papiro
Edwin Smith” (ambos do período das XVIII e XIX dinastias, entre 1500 a 1200
aC), além do “Papiro Kahun”
(referenciado à XII dinastia, no segundo milénio aC).
Os conhecimentos eram transmitidos
de geração em geração, em geral de pai para filho, ou entre membros de famílias
diferentes mas da mesma casta social. O exercício da profissão médica decorria
com o estatuto de funcionário superior do Estado, pelo que não eram recebidos
honorários por serviços prestados mas uma remuneração fixa. Nessa época já eram
referidas especializações médicas em determinadas doenças ou partes do corpo
(designadamente, em oftalmologia e ginecologia) e, também como agora, os
especialistas concentravam-se nas principais cidades. A população era assistida
gratuitamente pelos médicos pagos pelo Estado.
À semelhança do
que se referiu para a Mesopotâmia, no Egipto os médicos eram uma das três
classes de curadores, a par com os sacerdotes e os adivinhos.
Os conhecimentos
médicos identificados em papiros do Egipto Antigo, datados de 3500 a 3000 anos
aC, justificam especial referência; a par de fórmulas esconjurativas, são
mencionadas dezenas de doenças, métodos de diagnóstico, prognósticos e medidas
terapêuticas específicas.
O “Papiro Eberts” que, com os seus vinte
metros de extensão é considerado o mais antigo tratado médico disponível,
contém uma listagem de dezenas de doenças, a par com centenas de medicamentos e
exorcismos recomendados para cada patologia.
Tal como na
medicina Mesopotâmica, o exame clínico decorria sistematicamente da cabeça para
os pés, constituindo um procedimento que se manteve até ao presente. Igualmente,
os actos médicos decorriam segundo um ordenamento sistemático, iniciado pela
anamnese, a que se seguia a observação e a exploração da lesão, a palpação, a
mobilização da zona afectada e a observação do pulso arterial, após o que
informava o doente sobre o diagnóstico, prognóstico e possibilidades
terapêuticas. Além dos remédios utilizados em cada circunstância clínica, o
acto terapêutico não dispensava esconjuros e as orações dirigidas aos deuses
protectores, com o intuito de libertar o doente de males malignos. Todos os
tratamentos e esconjuros teriam sido revelados pelos deuses e estavam
codificados em livros secretos guardados em templos, a que tinham acesso
unicamente os sacerdotes.
Os Egípcios
antigos, do mesmo modo que os Mesopotâmicos, acreditavam que o bem-estar e a
saúde dos humanos estavam permanentemente ameaçados, desde o nascimento, por
demónios e outros espíritos malignos; este infiltrar-se-iam no corpo dos
doentes através dos seus orifícios naturais, para lhes comerem a substância
vital. Por conseguinte, estar em paz com os demónios, forças sobrenaturais e
com os mortos era fundamental para a conservação da saúde e para o equilíbrio
corporal. O estado de desequilíbrio, de que resultava a doença, tinha de ser
restaurado com esconjuros e orações. Acreditavam que as doenças eram causadas
não só por demónios mas também pela putrefacção intestinal.
Ao contrário dos
povos da Mesopotâmia, que colocavam o fígado no centro da vida, os Egípcios
consideravam o coração a sede da alma, pelo que, ao embalsarem as múmias,
retiravam todas as vísceras excepto o coração. Sabiam que este órgão
condicionava a circulação, mas a função mais importante seria a respiração. A
circulação era entendida como uma rede vascular com disposição análoga à do
Nilo e seus canais, pelo qual fluiria não só o sangue mas também o ar e todos
os líquidos e excreções sólidas corporais. Recorrendo às características
hidráulicas do rio Nilo, consideravam inconveniente que houvesse qualquer uma
obstrução na rede vascular, em particular por alimentos ou fezes, donde o
hábito de clisteres, laxantes e eméticos utilizados periodicamente em três dias
de cada mês, para limpeza corporal.
Desta época
ficou para a história Imhotep (2650-2600 aC), que viveu na III dinastia. Além
de ter sido grande sacerdote e antigo primeiro-ministro, deixou em testamento
tratados de medicina que foram utilizados nos séculos seguintes. A sua fama
assemelhar-se-á à do deus grego Asclépio,
gerando um culto que floresceu mais de dois mil anos mais tarde (no III século
aC) e se manteve activo por algum tempo em santuários onde os doentes
permaneciam de noite com o objectivo de lhes serem interpretados os sonhos
(provocados por dragões). Os templos dirigidos a Imhotep foram os precursores
dos asclepions (Santuários de
Asclépio), também dedicados à cura através desta divindade médica.
Pelo que se sabe
de concreto, e não obstante a sua associação com práticas mágico-religiosas, há
razões para admitir que a medicina egípcia atingiu um nível elevado para a
época.
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