quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

A MEDICINA NO ANTIGO EGIPTO (pdf 11ª-16ª aulas 2013-2014)

https://dl.dropboxusercontent.com/u/4746082/Escul%C3%A1pio/Hist%C3%B3ria%20da%20Medicina%202013-14/17%C2%AA%20e%2018%C2%AA%20AULAS%202013-14-Medicina%20na%20Antiga%20China.pdf


Os primórdios da medicina Egípcia remontam a cerca do século XXVIII aC, no tempo do Império Antigo. Por via da escrita hieroglífica, que assegurou a comunicação e um poder deificado que se prolongou por trinta dinastias, foram criadas condições sociopolíticas para uma grande continuidade de tradições e práticas sociais, em que se incluía também a arte de curar.
Muito do que hoje se conhece sobre a medicina Egípcia proveio dos estudos e escavações arqueológicas desenvolvidas na região banhada pelo Nilo, a partir dos séculos XIX e XX dC. Dos documentos descobertos destacam-se o “Papiro Georg Ebers” e o “Papiro Edwin Smith” (ambos do período das XVIII e XIX dinastias, entre 1500 a 1200 aC), além do “Papiro Kahun” (referenciado à XII dinastia, no segundo milénio aC).
Os conhecimentos eram transmitidos de geração em geração, em geral de pai para filho, ou entre membros de famílias diferentes mas da mesma casta social. O exercício da profissão médica decorria com o estatuto de funcionário superior do Estado, pelo que não eram recebidos honorários por serviços prestados mas uma remuneração fixa. Nessa época já eram referidas especializações médicas em determinadas doenças ou partes do corpo (designadamente, em oftalmologia e ginecologia) e, também como agora, os especialistas concentravam-se nas principais cidades. A população era assistida gratuitamente pelos médicos pagos pelo Estado.
 À semelhança do que se referiu para a Mesopotâmia, no Egipto os médicos eram uma das três classes de curadores, a par com os sacerdotes e os adivinhos.
 Os conhecimentos médicos identificados em papiros do Egipto Antigo, datados de 3500 a 3000 anos aC, justificam especial referência; a par de fórmulas esconjurativas, são mencionadas dezenas de doenças, métodos de diagnóstico, prognósticos e medidas terapêuticas específicas.
 O “Papiro Eberts” que, com os seus vinte metros de extensão é considerado o mais antigo tratado médico disponível, contém uma listagem de dezenas de doenças, a par com centenas de medicamentos e exorcismos recomendados para cada patologia.
 Tal como na medicina Mesopotâmica, o exame clínico decorria sistematicamente da cabeça para os pés, constituindo um procedimento que se manteve até ao presente. Igualmente, os actos médicos decorriam segundo um ordenamento sistemático, iniciado pela anamnese, a que se seguia a observação e a exploração da lesão, a palpação, a mobilização da zona afectada e a observação do pulso arterial, após o que informava o doente sobre o diagnóstico, prognóstico e possibilidades terapêuticas. Além dos remédios utilizados em cada circunstância clínica, o acto terapêutico não dispensava esconjuros e as orações dirigidas aos deuses protectores, com o intuito de libertar o doente de males malignos. Todos os tratamentos e esconjuros teriam sido revelados pelos deuses e estavam codificados em livros secretos guardados em templos, a que tinham acesso unicamente os sacerdotes.
 Os Egípcios antigos, do mesmo modo que os Mesopotâmicos, acreditavam que o bem-estar e a saúde dos humanos estavam permanentemente ameaçados, desde o nascimento, por demónios e outros espíritos malignos; este infiltrar-se-iam no corpo dos doentes através dos seus orifícios naturais, para lhes comerem a substância vital. Por conseguinte, estar em paz com os demónios, forças sobrenaturais e com os mortos era fundamental para a conservação da saúde e para o equilíbrio corporal. O estado de desequilíbrio, de que resultava a doença, tinha de ser restaurado com esconjuros e orações. Acreditavam que as doenças eram causadas não só por demónios mas também pela putrefacção intestinal.
 Ao contrário dos povos da Mesopotâmia, que colocavam o fígado no centro da vida, os Egípcios consideravam o coração a sede da alma, pelo que, ao embalsarem as múmias, retiravam todas as vísceras excepto o coração. Sabiam que este órgão condicionava a circulação, mas a função mais importante seria a respiração. A circulação era entendida como uma rede vascular com disposição análoga à do Nilo e seus canais, pelo qual fluiria não só o sangue mas também o ar e todos os líquidos e excreções sólidas corporais. Recorrendo às características hidráulicas do rio Nilo, consideravam inconveniente que houvesse qualquer uma obstrução na rede vascular, em particular por alimentos ou fezes, donde o hábito de clisteres, laxantes e eméticos utilizados periodicamente em três dias de cada mês, para limpeza corporal.
 Desta época ficou para a história Imhotep (2650-2600 aC), que viveu na III dinastia. Além de ter sido grande sacerdote e antigo primeiro-ministro, deixou em testamento tratados de medicina que foram utilizados nos séculos seguintes. A sua fama assemelhar-se-á à do deus grego Asclépio, gerando um culto que floresceu mais de dois mil anos mais tarde (no III século aC) e se manteve activo por algum tempo em santuários onde os doentes permaneciam de noite com o objectivo de lhes serem interpretados os sonhos (provocados por dragões). Os templos dirigidos a Imhotep foram os precursores dos asclepions (Santuários de Asclépio), também dedicados à cura através desta divindade médica.
 Pelo que se sabe de concreto, e não obstante a sua associação com práticas mágico-religiosas, há razões para admitir que a medicina egípcia atingiu um nível elevado para a época.




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