Antes dos humanos já havia doenças na Terra há muitos milhões de anos,
como o comprovam os numerosos vestígios evidenciados em esqueletos de fósseis
animais que viveram nas épocas Paleozóica (542-251 milhões de anos antes), Mesozóica
(251-65, 5 milhões de anos) e Período Terciário (65- 1, 8 milhões de anos) da
Cenozóica. Entre outras lesões identificadas pela paleontologia em dinossauros,
pterossauros, plesiossauros e outros animais daquelas eras, destacam-se
fracturas (algumas saradas com deformação mínima, outras com sinais de
infecção, desalinhamento ósseo ou cicatrizes extensas), cárie dentária, exostose
(crescimento anormal de parte de osso), periostite (inflamação da superfície
externa dos ossos), osteítes (inflamação da estrutura óssea) e osteoartrites.
Causas idênticas às que induziram patologias em animais pré-históricos
actuaram certamente em toda a escala de diferenciação do género Homo, até ao
seu termo final, o homem moderno. Os mais antigos casos conhecidos de doença em
antepassados antropóides do homem datam do Pleistoceno, entre 1, 8 3 15 milhões
de anos.
Do Neolítico, são conhecidos
vestígios de diversos tipos de doenças humanas. A trepanação craniana foi a
primeira intervenção cirúrgica da Humanidade. Na sua origem estariam propósitos
religiosos, mágicos (para libertar espíritos demoníacos, como causa admitida)
ou terapêuticos (p.ex., para reparar fracturas, retirar lascas existentes na
superfície craniana e solucionar cefaleias ou comportamentos psicóticos).
Os ossos provenientes de
períodos mais remotos (Paleolítico, Mesolítico e Neolítico) indicam que a vida
média desses antepassados oscilava entre trinta a quarenta anos e que os homens
viviam mais tempo do que as mulheres. Esta diferença deverá atribuir-se,
naturalmente, às condições em que decorriam a gravidez e o parto, assim como a
uma nutrição insuficiente para a procriação e trabalho produzido. A partir de
Paleolítico Superior, este tipo de vivências importantes, como a gravidez e o
parto, ficaram também registadas sob a forma de desenhos ou pinturas em pedra
de caves ou outros marcos simbólicos.
Quando se sentia doente, o Homo sapiens terá começado por proceder como
os seus antepassados antropológicos, seguindo o instinto de sobrevivência
primária dos outros animais. A par da procura de alimentos e do instinto
sexual, os primatas aprenderam a remediar alguns dos males que os afligia com
os produtos naturais do meio em que habitavam. Lamber as feridas, catar
parasitas, ingerir ervas com poder emético, rebolar na água ou em lama para
aliviar dores ou desconforto físico, são exemplos de práticas ainda utilizadas
por algumas espécies animais, tanto como o terão sido em épocas remotas. Os
registos rupestres legados pelo homem primitivo nas paredes rochosas das caves
que habitou reforçam a convicção quanto ao seu interesse pela constituição do
seu corpo e de alguns dos fenómenos naturais da vida protagonizada.
Tal como sucede actualmente nas culturas primitivas ainda existentes, a
magia, a religião e os tratamentos empíricos impregnavam o comportamento da
sociedade, decerto para solucionar ou compensar as dificuldades da vida de cada
um dos seus membros, face a uma Natureza hostil e incompreensão sobre muitos
dos seus fenómenos.
Ao longo da sua evolução, o homem apreendeu a diferença entre as
intercorrências de saúde que se resolviam por si ou eram naturais, e as que se
lhe afiguravam excessivas e irresolúveis. Para estas, acreditavam que não
haveria outra explicação senão atribuí-las a forças sobrenaturais , fomentadas
por espíritos malignos, ou resultantes de magia ou feitiçaria que exigiriam a
intervenção de indivíduos com poderes especiais de resolução ou esconjuro. Os
curandeiros, feiticeiros, magos, xamãs e, também, os sacerdotes das várias
religiões pré-históricas, adquiriram óbvio ascendente social como
interlocutores directos do imaginário e, por consequência, sobre a vivência e
saúde das populações, em que não se distinguiam na mesma crença e temores os
governantes dos súbditos.
Os tratamentos para situações consideradas mais complexas envolviam
cerimoniais próprios de cada comunidade, com cânticos, danças, fetiches,
evocações e interpretações místicas e simbólicas. No conjunto, os procedimentos
utilizados tinham por objectivo expulsar demónios e espíritos malignos, trazer
de volta a alma roubada ao doente e ou aplacar a ira dos deuses. Os tratamentos
cirúrgicos entre as tribos primitivas incidiam particularmente em sarar feridas
e corrigir fracturas ósseas, embora houvesse situações mais complexas, como as
da extracção de setas, drenagem de abcessos, correcção de luxações e, também,
amputações. A parte obstétrica era confiada a mulheres da tribo, sendo
conhecidas várias manobras para favorecer o parto.
Para afastar os demónios da doença ou que lhes perturbava a vida, lhes
dava má sorte, para se protegerem dos mais diversos malefícios, ou augurarem um
desejo, as pessoas acostumaram-se a usar amuletos de toda a espécie de
materiais e formas, além de invocarem os antepassados de diversos modos. O
culto dos mortos era cuidadosamente respeitado em parte por acreditarem que o
espírito daqueles continuava presente na comunidade, influenciando a vida de
familiares e conhecidos e inclusivamente, querendo tomar conta dos seus corpos.
Por esse motivo, as cerimónias fúnebres seguiam um cerimonial específico que
incluíam oferendas para apaziguar o falecido dos seus intentos ou para que se
esquecesse das pessoas que conhecera em vida).Além serem possuídos por um espírito
de um familiar morto ou por um demónio, os humanos temiam perder a alma.
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